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Drogas, equívocos e soluções

08 jun

Artigo postado no Brasil de Fato

Internações podem ser úteis em situações de crise ou surto.  Nunca como solução. Todo drogado grita em outra linguagem: “Eu quero ser amado!”

Frei Betto,

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O fenômeno das drogas atinge todos nós. Não há exceção. Ainda que você não tenha um  dependente químico na família, o perigo reside no assalto. Nada pior  do que  ser assaltado por uma pessoa drogada. Qualquer gesto, por mais  inocente, pode  representar na cabeça dele uma reação que merece a  morte.
Não é apenas nas ruas que a existência de grande número de viciados  preocupa. Em todas as classes sociais há quem seja dependente de drogas. Não somente das proibidas, como cocaína e ópio, mas também das  que se podem adquirir em  farmácias (com receitas falsas) ou em  hospitais (por desvio). Nos dois casos,  uma grana extra faz do funcionário um corrupto, e a droga de tarja preta chega fácil às mãos do usuário.

Famílias de classes média e alta conhecem a tortura do que significa ter um  parente  dependente químico. Por sua vez, o poder público, incomodado com a paisagem urbana das cracolândias, advoga a internação compulsória. Medida, aliás, adotada por certas famílias com recursos  para pagar internação em clínicas de (suposta)  recuperação.
Restam as  perguntas que não querem calar, mas que famílias e poder público insistem em abafar: o que induz uma pessoa a consumir drogas? Qual a  solução para o problema?
Se amanhã hóstia de igreja, que é oferecida gratuitamente, virar grife, terá  preço de mercado, como jeans esfarrapados vendidos hoje em lojas sofisticadas.  Ocorre que só quem comunga por razões religiosas consome hóstias. Do mesmo modo, o narcotráfico – que deve ser combatido com todo rigor – só existe porque há um amplo e voraz mercado de consumo.
O  que leva uma pessoa a consumir drogas é a carência de autoestima.  Sentindo-se inferior, desamada, pressionada pelo estresse competitivo,  ela encontra nas drogas o recurso para alterar seu estado de consciência. Assim, se sente bem melhor do que ao enfrentar, de cuca limpa, a realidade. Sobretudo com certas drogas, como a cocaína, que  imprimem sensação de onipotência.
Todo drogado é  um místico em potencial. Sabe que a felicidade é uma experiência da subjetividade. Nada fora do ser humano é capaz de trazer felicidade.  Dê a um dependente químico barras de ouro para que abandone a droga e inicie vida nova. Ele logo tratará de vendê-las para comprar drogas. 
A droga decorre de nossa escala de valores. Há nisso forte componente educativo. Se um jovem é educado priorizando como valores riqueza, sucesso, poder e beleza, tende a se tornar vulnerável às drogas. Elas funcionarão, periódica e provisoriamente, como cobertor ao frio de suas ambições frustradas.
Alerto meus  amigos que têm filhos pequenos: deem a eles muita atenção e carinho, especialmente até que completem 12 anos. Internações podem ser úteis em situações de crise ou surto.  Nunca como solução. Todo drogado grita em outra linguagem: “Eu quero ser amado!”
E o poder  público, o que fazer diante desta epidemia química? Internação compulsória? Funciona provisoriamente como limpeza da paisagem urbana.  Em um  país como o nosso, em que o sistema de saúde é tão precário,  difícil acreditar que existam clínicas de internação em número suficiente para atender todos os dependentes e que tenham suficiente pedagogia de recuperação.
A  solução talvez não seja fácil para aqueles que já romperam vínculos familiares. Contudo, há, sim, solução preventiva se o poder público cumprir  seu dever de assegurar a todas as crianças e jovens educação de qualidade. Um  jovem que sonha ser um profissional competente jamais entrará nas drogas se tiver educação garantida, sobretudo centrada em  valores altruístas, solidários, espirituais.
Morei cinco anos em favela. Aprendi que nenhum traficante deseja que seu filho siga os seus passos. O sonho é que o filho seja doutor. Portanto, no dia em que o poder público levar aos ninhos do tráfico mais escolas, música, teatro, academias de ginástica, bibliotecas, e menos batidas policiais e balas “perdidas”, teremos menos viciados e traficantes.

Portugal ensinou  muito ao Brasil: o idioma, o prazer do queijo, a religiosidade cristã, a arte sacra, o gosto pela literatura etc. É hora de aprendermos  também com Portugal como lidar com as drogas. Lisboa é a capital  europeia com menor índice de homicídios.

Frei Betto é escritor, autor do romance sobre drogas “O Vencedor” (Ática), entre outros livros.

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Publicado por em 08/06/2013 em Artigo

 

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