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Vito Giannotti: Todo dia é dia de luta

15 out

foto_mat_38281“‘O brasileiro é bonzinho’, essa é a ideia que queremos combater”, diz em entrevista à Carta Maior o escritor e coordenador do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), Vito Giannotti, um dos idealizadores da agenda 2013 Lutas, Revoltas, Levantes e Insurreições Populares, que contou com uma equipe de historiadores, jornalistas, professores e estudantes para levantar fatos e fotos que poucos conhecem sobre a história do país nos séculos XIX, XX e XXI. A agenda, diz Giannotti, mostra que “o povo brasileiro foi e é um lutador 365 dias por ano”.

Rodrigo Otávio – Postado Carta Maior

Rio de Janeiro – O livro agenda 2013 Lutas, Revoltas, Levantes e Insurreições Populares, do Núcleo Piratininga de Comunicação (NPC), mostra que, em 1978, na preparação da primeira greve dos metalúrgicos de São Paulo, a Oposição Sindical publicou o cordel “Chegou a Hora: Nós e os Patrões – O Desafio de Morte”, do metalúrgico Pedro Macambira. Assim, através das páginas da publicação, vê-se que via manifestação cultural ou megafone, chova ou faça sol, o povo brasileiro foi e é um lutador 365 dias por ano.
“‘O brasileiro é bonzinho’, essa é a ideia que nós queremos combater”, diz em entrevista à Carta Maior o escritor e coordenador do NPC Vito Giannotti, um dos idealizadores da agenda, que contou com uma equipe de historiadores, jornalistas, professores e estudantes para levantar fatos e fotos que poucos conhecem sobre a história do país nos séculos XIX, XX e XXI. Ele explica que na agenda saem os usuais suspeitos que encabeçam os mais respeitáveis relatos da terra brasillis e entram mulheres que jogam padres de sacristias e populações que resistem a bombardeios da aeronáutica brasileira. Isso mesmo! Aviões brasileiros jogando bombas na cabeça de brasileiros.
“Não tem Juscelino Kubitschek. Não interessa Juscelino. Brasília. Que Brasília? Brasília interessa os candangos que construíram. Não queremos dizer que temos grandes personalidades no Brasil. Isto a história oficial sempre fala, dos “grandes generais”, “presidentes”, “deputados”, “juristas”. Não, não, não, queremos falar do povo, do povo”, afirma Vito.
Por que uma agenda impressa em tempos de smartphones, Facebook e aplicativos? A agenda pode migrar de mídia?
Vito Giannotti: Agenda pode ser feita de mil maneiras, uma delas é a impressa. Eu acho que muita gente gosta de ter sua agenda impressa na bolsa ou em cima da mesa. Quer dizer, não é a única, mas é uma das formas de uma agenda. Como eu sou um defensor da imprensa, do jornal, do livro, da revista acompanhando toda esta tecnologia da mídia eletrônica via internet, nós fizemos essa agenda impressa.
Ela pode ser usada de mil maneiras. Tem gente que pega notícia do dia nessa agenda e coloca no seu Facebook, no Facebook do sindicato, no Twitter, ou onde quiser. Então não é ou um ou outro. Eu sou da opinião que a mídia eletrônica tem um espaço enorme a ser explorado e aproveitado por todo mundo que quer disputar a hegemonia na sociedade.
Só que nós estamos em um país onde 60% das pessoas não chegarão a usar a mídia eletrônica nos próximos 20 anos. Por isso que eu não sou exclusivista, “a mídia eletrônica é a salvação da lavoura”, não! A mídia eletrônica é um grande instrumento atual para jovens dinâmicos, para quem está acostumado a ler, a frequentar salas de cinema e teatro, quem lê revista, jornal, livro etc.
Agora, tem outros instrumentos. E um dos outros instrumentos é o jornal, que ainda não chegou no Brasil. Somos um dos países com menor índice de leitura de jornais no mundo, estamos em 101° lugar, o que é uma vergonha. Então vamos fazer chegar com jornais muito bem feitos, distribuídos gratuitamente para a população, e ela vai se acostumar a ler.
Quantas agendas o NPC já produziu e quais foram os temas?
Nós produzimos umas cinco ou seis agendas. A primeira foi sobre comunicação, a comunicação dos trabalhadores ou a comunicação que os trabalhadores precisam combater, colocando notícias sobre essa comunicação dia a dia, o nome foi Comunicação Dia a Dia. Foi em 2005 que saiu a primeira. Depois saiu outra, a história das lutas dos trabalhadores no Brasil, trabalhadores no século XX, foi uma série, umas 700 ou 800 notícias sobre greves, movimentos, agitações feitas pelos trabalhadores para mostrar para todo o mundo como se lutou no Brasil, como se conquistaram os direitos que temos e o perigo que temos de perder esses direitos. Então foi História das Lutas dos Trabalhadores. Depois teve outra que foi uma variação sobre comunicação, mais atualizada, ampliada.
Aí teve uma agenda sobre a luta das mulheres no Brasil e no mundo. A luta das mulheres pela sua libertação, pela sua afirmação na sociedade masculina, masculinista, machista na qual nós estamos, que todo mundo sabe muito bem o que é, embora muita gente queira fechar os olhos para isto. Nós fizemos essa agenda para fazer com que muita gente abra os olhos, na marra, para a luta das mulheres, para como as mulheres vivem, quais são os problemas políticos e sociais que fazem com que as mulheres sejam tratadas como seres de segunda, terceira ou quarta categoria. Então fizemos essa agenda, que eu acho que foi um trabalho de formação política muito interessante.
Aí reproduzimos algumas vezes aquela da luta dos trabalhadores revisada, atualizada e tal, e esse ano nós optamos por fazer essa agenda sobre lutas, revoltas, levantes e insurreições populares. Não são insurreições militares. Não! Lutas populares durante dois séculos, de 1800 até hoje.
Por que esse tema?
Porque nós achamos que esse tema é um tema trágico. Em que sentido? Há uma educação, melhor diria, uma deseducação, promovida pelas escolas, igrejas, sociedade, e sobretudo repercutida infinitamente pelo rádio e televisão que se resume naquela frase de brincadeira, que não é nenhuma brincadeira, é uma tragédia: “brasileiro é bonzinho”. O Núcleo Piratininga viu que essa frase é uma frase tremendamente nociva à educação das gerações velhas, novas e futuras. Por quê? Através de uma frase de brincadeira, meio jocosa, “brasileiro é bonzinho”, há o significado que brasileiro é bobão, bobalhão, vamos ser mais explícitos, é bundão! Sabe o que significa? Não luta! O brasileiro não enfrenta.
Historicamente significa “está aberto ao colonizador”.
É claro! Ao colonizador, ao opressor local, ao patrão. A tudo o quanto é forma de opressão. Ao governo que manda e desmanda e te diz que estamos em uma democracia, quando na verdade o povo, como disse Fabio Comparatto nesta semana no jornal Brasil de Fato, “no Brasil nós não temos democracia nenhuma, o povo não manda nada”, quem fala é o célebre jurista Fabio Konder Comparatto.
Mas por quê? Porque o brasileiro é bonzinho, “ah! Deixa, o governo resolve, o vereador resolve, o deputado resolve, o general resolve, a ditadura resolve”. Quer dizer, essa ideia que o brasileiro é bonzinho é uma ideia que reforça que o brasileiro é alienado, não participa de nada, não está nem aí, só quer saber de samba, futebol, cachaça, os homens querem saber só de mulher, as mulheres só de homem, e acabou, nada mais.
Enquanto lá fora não. Lá fora, olha a propaganda que vem; “Na Argentina, na França, na Grécia, Itália, Estados Unidos, o povo luta. Aqui é bonzinho”. Significa bundão. “O brasileiro é bonzinho…não luta por nada, só espera que caia da céu”. Essa é a ideia que nós queremos combater.
E como combater?
Tem mil maneiras de combater isso. A melhor maneira seria uma campanha feita em todas as escolas e pelos meios de comunicação. Só que televisão e rádio estão nas mãos de empresários, patrões, burgueses, donos do capital, do dinheiro. E para eles é importantíssimo manter essa ideia imbecil que o brasileiro não luta, não faz nada, não se revolta, aceita tudo. Por quê? Isso estimula a não se levantar, a aceitar tudo. Então os meios de comunicação têm todo o interesse em conservar a sociedade brasileira do jeito que está; porque para eles, para os donos do poder, está maravilhoso, divino, o Brasil.
O Brasil é o quarto país mais injusto do mundo, diz a ONU. Mas para esses donos do capital, que determinam os rumos do país, está maravilhoso. Claro, um país que não tem imposto para iate, barco particular, helicóptero. Um país onde o imposto territorial, o ITL, é ridículo, quase não existe, esse país é divino para quem tem terra, para o grande latifúndio, para o agronegócio. Então precisa manter esse país como está. Como? Difundindo, divulgando, repetindo, multiplicando a ideia que o Brasileiro é bonzinho, não luta, é só dar o futebol, uma feijoada e uma cervejinha que está tudo bem.
O quê nós quisemos mostrar nessa agenda? Centenas de lutas desconhecidas no Brasil. Não faladas, esquecidas ou citadas em uma linhazinha à toa. E nós queremos mostrar o contrário. São lutas feitas pelo povo, para não se deixar oprimir, para acabar com injustiças.
Os exemplos são inúmeros…
Tem luta de negros, mas não só a luta dos quilombos. Um monte de revolta, de levantes na Bahia, no Recife, no Nordeste, aonde tinha escravo. Levantes violentos, muito bonitos contra a injustiça. Tem uma luta na Paraíba chamada a Luta do Rasga Lista. Era o governo depois da guerra do Paraguai, 1865, por ali, aquela grande safadeza que nós fizemos com o Paraguai. Nós quem? O capitalismo inglês mandou Brasil, Argentina e Uruguai fazer contra o Paraguai… mas não vamos contar isso agora.
Depois dessa guerra o governo começou a manter lista de alistamento militar obrigatório, como durante a guerra, nas várias cidadezinhas do interior e tal. Mandava um fiscal junto com soldados para ler na praça pública, na frente ou dentro da igreja, o nome de quem era convocado. Ok. O povo não gostava porque tirava 20, 30, 50 jovens da cidade por dois, três anos, ninguém sabia se voltava ou não. Então tiveram vários episódios que o povo se levantou para rasgar as listas com os nomes.
Tem outro episódio fantástico, desta vez na Paraíba, que umas cem mulheres foram na igreja onde estava a lista dos futuros soldados e começaram a discutir e brigar com os militares. As mulheres rasgaram as listas, e o padre, enfurecido, começou a expulsar as mulheres da igreja. As mulheres correram atrás do padre, ele subiu na sacristia, na torre, e elas atrás dele enfurecidas. Até que empurraram o padre (graças a deus!!) para fora e ele morreu estrebuchado na praça. Isto é um episódio fantástico de luta popular! De mulheres! Quem diz que mulher brasileira é boazinha, é babaca? Só sabe fazer docinho e cuidar da bunda de criança? A mulher brasileira sabe cuidar de filho, sabe fazer comida, ok. Mas sabe também jogar um padre pela janela quando o padre se alia com o poder contra a vontade do povo.
Isso há mais de um século…
Cito outro mais recente para mostrar que o brasileiro não tem nada de pacífico, nada de bonzinho. 1937. No Ceará havia um lugar chamado Caldeirão. Lá se juntou um povo que ia para Crato, onde tinha o padre Cícero, para conseguir terra e tentar melhorar a vida. Juntou umas duas mil pessoas que plantavam coletivamente em um sítio que o padre Cícero tinha conseguido. Era um sítio dos jesuítas, que aí venderam para os salesianos. E o povo ficou lá, plantando e vendendo coletivamente.
O governo Vargas e os outros fazendeiros não gostaram, era um “péssimo exemplo” para outros agricultores. O exército foi lá, igualzinho a Canudos, e aí aconteceu a Guerra do Caldeirão. O governo mandava tropas, o povo resistia, e morria muita gente. Olha o brasileiro “bonzinho”! Enfrentava, não fugia e morria. Em dezembro de 1937, o governo de Vargas, a ditadura do Estado Novo, mandou a aviação bombardear aquele povoado. Derrubaram tudo e mataram 800 pessoas, os que sobraram os militares cortaram as cabeças. Olha os brasileiros enfrentando.
Ou seja, para resolver o problema, na visão deles, na visão do capital, o governo Getúlio Vargas mandou a aviação bombardear. Me diga onde se sabe de uma coisa dessas. Eu não conheço em outro país. Conheço na Espanha, Guernica, mas foi a aviação alemã que bombardeou a cidade para impedir a revolução socialista etc e etc. Um país estrangeiro. A Alemanha bombardeou os revoltosos de Guernica, na Espanha. Aqui no Brasil a nossa aviação que bombardeou os rebeldes. Olha o brasileiro “pacífico, bonzinho, de índole cordial” aí. Teve que mandar a aviação para acabar com esses “bundões” aí. Esse é o sentido da agenda.
Como foi a pesquisa e quais foram as principais fontes, inclusive de fotos?
Algumas centenas de livros que já tínhamos, compramos um monte de outros livros e começamos a pesquisa, sempre com o auxílio da internet, hoje em dia lá há trabalhos de pesquisa universitária, livros, e-book, satanás e tudo o mais. E conversamos com pessoas. Com gente do Ceará que me falou dessa Revolta do Caldeirão, que eu não acreditava. Ninguém sabe no Brasil, só alguns cearenses. Por que não sabe? Porque a Globo nunca vai falar disso. É um “péssimo exemplo” para os brasileiros de como se enfrentar, como se defender e como não fugir ao primeiro tiro. Qual é a ideia idiota que se fala, “é só dar um tiro que foge todo o mundo”. Mentira!
A pesquisa teve além de mim, três ou quatro pessoas, professores, universitários, que fizeram esse trabalho. Conseguimos também o auxílio de outros professores convidados, e umas quatro, cinco pessoas como estagiários. Pesquisamos, pesquisamos, teve que se confirmar cada data, cada lista e etc. Foi uma pesquisa de uns oito meses, depois redigimos e tivemos que procurar imagem, imagens liberadas e etc, para se colocar. Foi um trabalho, eu diria, muito duro, muito difícil, mas extremamente prazeroso.
Por que? Cada luta que se descobria, que nunca se tinha ouvido falar, era uma alegria. Alegria de dizer: “vamos publicar isto”. Dizer a centenas, milhares de pessoas que lerão isso. A alegria de poder oferecer um alimento extremamente sadio, uma informação muito sadia para acabar com essa ideia criminosa que o brasileiro é bunda mole.
E ainda ficou coisa de fora? Deu pena de fazer cortes?
Ah, sim! Claro que ficou coisa de fora. Porque a agenda é pequena, nós não queríamos fazer um livro. Tem livros muito bonitos, são citados alguns deles lá. Tem um livro com quase o mesmo título da agenda que saiu este ano (História das Lutas dos Trabalhadores no Brasil, também de Giannotti). Ficou muita coisa de fora porque não cabe tudo na agenda, tem um espaço pequeno; colocamos uma, duas, no máximo três notícias por dia.
Como foi o critério de edição?
Primeiramente tinha que ser uma notícia confirmada, segura. O outro era que destacasse o aspecto de luta do povo, popular. Fizemos questão de quase nunca colocar nomes de pessoas, porque não é o herói sozinho que faz, sabe? Um mínimo possível de nomes de personalidades.
O critério foi de lutas populares. Não tem Juscelino Kubitschek. Não interessa Juscelino. Brasília. Que Brasília? Brasília interessa os candangos que construíram. Não queremos dizer que temos grandes personalidades no Brasil. Isto a história oficial sempre fala, dos “grandes generais”, “presidentes”, “deputados”, “juristas”. Não, não, não, queremos falar do povo, do povo.
Por que especial atenção ao século XIX e ao Nordeste?
Não é especial, foi o que a gente encontrou. XIX e XX colocamos. Não pegamos desde o começo do país porque primeiramente seria uma agenda com cinco vezes o volume dela, com toda a história dos quilombos e etc. Não colocamos isso de propósito. Não que não é importante, mas isso muitas vezes já é contado, se sabe um pouco. E depois tem que fazer uma seleção, um corte, senão a agenda fica imensa.
Nós queríamos pegar só o século XX, mas pensamos, “não, o século XIX tem muitas revoltas”, e elas aconteceram muito no Nordeste. Não esqueça, Pernambuco, Recife, era chamada a Noiva da Revolução. Veja só! Teve dezenas de levantes nas terras de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, que naquele momento era um enorme polo produtor de açúcar. Teve muitas revoltas dos povos índios, escravos ou o povo dos portugueses empobrecidos também contra o poder. Então nós relatamos o que nós encontramos. Não foi uma decisão de privilegiar o século XIX.
O século XX também tem destaque…
No século XX tem belíssimas lutas operárias. Colocamos greves, não todas elas, porque há mais de dez mil que dariam para colocar. Colocamos as grandes greves, como a de 1917 em São Paulo, quando a cidade ficou parada um mês, nas mãos dos grevistas. Começou com a morte de um sapateiro e etc. O governo teve que negociar na marra, se retirou da cidade, saiu de São Paulo e foi para Jundiaí, de trem, todo o governo. Igualzinho na França, na época da comuna de Paris, quando tomaram o poder e o governo se retirou para Versalhes. Igual Jundiaí com São Paulo, é uma greve fantástica.
Mas tivemos outras grandes greves, 1953, uma greve de uma semana em São Paulo com assembleia de 100 mil pessoas no estádio do Pacaembu recém inaugurado. Greve de 1957, 63, as grandes greves do ABC paulista. E em São Paulo a greve do Santo Dias. Claro que fala do nome Santo Dias, porque mostra um metalúrgico de SP em uma greve que foi feita com o sindicato contra, a oposição sindical liderou e o Santo Dias, que era um membro da chapa de oposição, foi fazer piquete. Estava lá com sete, oito colegas e chega a polícia e manda parar. E o Santo Dias, que era um homem “pacííífico”, jovenzinho, pai de dois filhos, disse que não ia parar, que era um direito dele. Discutiram e ele tomou dois tiros nas costas. Se ele fosse um brasileiro bonzinho, falaria, “sim senhor, eu vou parar senhor tenente”. Não, não parou. Foi o soldado Herculano que matou ele, um desses assassinos aí. E quem estava com o Santo Dias entrou na porrada. O João, da NWN, que estava lá no piquete com ele, se atracou com a polícia em cima do corpo do companheiro morto. É bundão esse povo?
Fala daquela greve, fala da greve do ABC, de cem mil pessoas no 1° de maio em São Bernardo, dos metalúrgicos de lá. Mas não fala “a greve liderada por Lula”. Não! Era o povo naquela greve! O destaque nós damos é para os trabalhadores parando durante 41 dias.
A agenda aborda três séculos. Dá para apontar lutas que de fato foram vencidas? E outras que, ao contrário, permanecem na estaca zero?
Lutas que foram vencidas. A luta dos metalúrgicos em São Bernardo conseguiu impor para o governo militar; primeiro, o fato de ter o direito de fazer greve; segundo, reajustes semestrais, naquele tempo o reajuste era anual e a inflação comia tudo. Conseguiu-se semestral e depois passou a trimestral. E é o seguinte, se não tivesse tido essas lutas, os salários que os patrões, que a ditadura militar queria impor, era um salário cada vez menor. Por quê? A ditadura militar, como fala Fabio Konder Comparato na entrevista ao “Brasil de Fato” que já citei, foi uma ditadura empresarial- militar, que o capital precisava para garantir seus lucros. Como? Reduzindo o salário e as despesas com os trabalhadores nas fábricas. Essas greves que foram feitas é que garantiram um salário minimamente digno para permitir quem está trabalhando viver. O capital faz a festa e os trabalhadores comem as migalhas. Mas se não fossem essas greves nem as migalhas se comeria.
E quais lutas permanecem na estaca zero?
A reforma agrária, por exemplo. Não digo estaca zero, mas no Brasil a reforma agrária está parada …hum… desde o fim da escravidão. Quando acabou a escravidão? 1888. O que se fez? O que foi dado para os negros libertos? Um chute no traseiro, ou seja, não se deu um pedaço de terra, não se fez a reforma agrária. E esses negros, “livres, felizes da vida” foram para os cais dos portos trabalhar como carregadores de navios. Foram para os morros, fazendo seus barraquinhos. A reforma agrária não foi feita, Getúlio Vargas nunca falou em reforma agrária.
Aí pega o governo Lula. A reforma agrária que foi feita foi uma mixaria, uma vergonha, igualzinho ao que foi feito no governo FHC. A reforma agrária ainda não foi feita no país, por isso que existem milhões de sem-terra, por isso que existe o MST, para exigir a reforma agrária. Qualquer país capitalista fez sua reforma agrária. A reforma agrária não tem nada de revolucionááário, nada de socialista, nada de comunista. O mínimo de crescimento harmonioso em um país é distribuir terra para ter uma circulação maior de dinheiro, ter gente comprando, vendendo e um país menos desigual do que nós temos.
O governo Lula e o governo Dilma estão fazendo a reforma agrária à conta gotas. Do ponto de vista de assentamentos, de desapropriação de terras, primeiramente do estado, públicas e devolutas, ou do grande latifúndio, nem se fala no governo, de jeito nenhum. Desapropriar o grande latifúndio? Mas nem pensar. Ao contrário, é facilitar a vida do agronegócio para exportar commodities. Eu estava em Mato Grosso há dois dias e vi, o estado é uma plantação de soja e de milho só. O rei da soja do mundo é o primo do Blairo Maggi (ex-governador do MT), é um Maggi aí. Está lá em Mato Grosso. E os sem-terra. “Sem-terra? Que morram os sem-terra”. Qual a solução para os sem-terra? “Vai para a cidade fazer favela lá que tem espaço para morrer à vontade”.

Fotos: Divulgação

Para comprar envie mensagem para npiratininga@uol.com.br

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